domingo, 26 de janeiro de 2014

O socialismo, o idiota e a ideologia

Resposta de Mauro Iasi a Arnaldo Jabor

“Quando a gente mente, ou seja, coloca com astúcia alguma coisa que acontece com excessiva raridade ou nunca acontece, aí a mentira se torna muito mais verossímil”

O Idiota, Dostoiévski
O Príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin [personagem do romance O Idiota], exímio calígrafo, um pouco santo, profético e epilético, gosta tanto de suas idéias que por vezes, segundo um personagem seu amigo, “lhe dava vontade de ir para algum lugar, sumir inteiramente dali. (…) gostaria até de um lugar sombrio, deserto, contanto que ficasse só com os seus pensamentos”. Sempre foi um humanista, nutria uma profundo amor pela humanidade, apesar de sua hipossexualidade, mas a humanidade lhe parecia errada, grotesca, como uma projeção de sua baixa auto-estima.

Em uma carta, Hippolite [Hippolite Terentyev, personagem do romance O Idiota]  declara que “no amor abstrato para com a humanidade, não se ama a ninguém, e sim a si próprio”. Assim era ele. Zeloso e heroico defensor da humanidade abstrata e inimigo declarado dos seres humanos. Disposto a morrer pela humanidade no ato heroico contra moinhos, ou preso à cruz para salvar os pecados dos homens, como um Quixote/Cristo crucificado entre dois ladrões diante de um mar de moinhos vitoriosos.

O príncipe Míchkin hoje se preocupa com o “perigo vermelho”, como um dia já se preocuparam os Czares, o Pentágono, os militares latino-americanos e os reacionários de toda ordem. Ele sofre, como o único que vê a verdade em uma terra de cegos e estúpidos. Suas prédicas morais não têm valor algum em si mesmas, nem originalidade. São expressão de sua (para usar uma categoria cara ao autor) burrice, tagarelices de um idiota.

Suas ideias nos servem, no entanto, para outro propósito, como um rico material para discutir os eficazes mecanismos da ideologia. Seguindo as pistas de Marx (o príncipe Míchkin propõe, como veremos, uma bibliografia alternativa e mais gabaritada) sabemos que a ideologia opera como um poderoso instrumento de dominação de classe por meio de mecanismos como a inversão, o ocultamento, a naturalização, a justificativa e a apresentação do particular como fosse universal.

***

Vejamos, então, seus principais “argumentos” para que possamos refletir sobre a profundidade abismal das alternativas que nos propõe.

Segundo Míchkin o grande problema do Brasil é que o ciclo dos governos petistas prende nosso país em uma anacronia. Isto é, ao invés de se ocuparem com as “reformas no Estado paralítico e patrimonialista”, só pensam no passado com “nostalgia masoquista de torturas, heranças malditas, ossadas do Araguaia” que, segundo o príncipe amargurado, os legitimaria.

Trata-se, segundo o juízo do nobre decadente, da insanidade de insistir em uma luta perdida de tempos ilusórios. Ele pode afirmar com segurança essa constatação porque “estava lá” e viu “o absurdo que foi aquela tentativa de revolução sem a mais escassa condição objetiva”. Entretanto, na opinião do talentoso calígrafo, a raiz desse equívoco é mais profunda: já nos primeiros anos do governo petista, Míchkin alertava para o perigo de “sovietização” do governo brasileiro e agora insiste no caráter “neobolchevique” do governo Dilma. E profetiza:
“É um perigo grave que pode criar situações irreversíveis a médio prazo, levando o País a uma recessão barra-pesada em 14/15. É necessário alertar à população pensante para esse “perigo vermelho” anacrônico e fácil para cooptar jovens sem cultura política. Pode jogar o Brasil numa inextrincável catástrofe econômica sem volta.”
Vejam: nós, que não fazemos parte da população pensante, doentes mentais de marxismo crônico e jovens sem a cultura política do príncipe Míchkin, estamos sendo manipulados pelo “neobolchevismo” que nos leva, sem que saibamos, para o abismo da crise “barra-pesada”. Essa sua espessa cultura lhe permite remeter aos ensinamentos históricos. Por exemplo, à situação alemã na qual o stalinismo satanizou a social democracia e abriu caminho para o nazismo, nos esclarecendo que o “PSDB da Alemanha”, para eles, era mais perigoso que Hitler. Nós que não somos parte da população pensante ficamos confusos diante do brilho desta sabedoria. O PSDB representa aqui no Brasil uma força reformista, com raízes no movimento sindical e operário(?), o PT uma reencarnação grotesca do bolchevismo stalinista(?)… então, quem são os nazistas? Bom… não perdemos tempo com coisas que nossa cabecinha não pode compreender. Deixemos o príncipe epilético continuar pregando, pois ele tem a solução:
“Temos que parar de pensar do Geral para o Particular, de Universais para Singularidades. As grandes soluções impossíveis amarram as possíveis. Temos que encerrar reflexos dedutivas e apostar no indutivo. O discurso épico tem de ser substituído por um discurso realista, possível e até pessimista.”
Eu sei, leitores jovens sem cultura, é difícil acompanhar o Míchkin em seus chiliques, mas ele começou a doutrinar metodologicamente agora. Vejam, ele estava falando de política, de economia, de história (ele estava lá e viu), todas áreas nas quais ele acumula uma sólida ignorância, e agora saltou para as bases teóricas e filosóficas daquilo que ele não entende. Um pouco atrás no artigo ele já havia se referido a Hegel e sua teleologia da história (que ele confundiu com “teologia”) segundo a qual na sua genial síntese “as derrotas não passam de ‘contradições negativas’ que levam à novas teses”. É certo que não há uma mera continuidade entre a visão de história de Hegel e Marx. É evidente que nem Hegel nem Marx fundamentam seu pensamento procedendo o caminho metodológico do Geral para o Particular, nem de Universais para as Singularidades. Mas o que sabem Hegel e Marx sobre seus pensamentos?

Desavisados acreditariam que o caminho do método para compreender o real e seu movimento, para Hegel e para Marx, seria do singular ao universal, por meio das particularidades. Mas deixemos de lado estas questões secundárias que só podem interessar àqueles que ainda se apegam ao trabalho doentio de estudar os autores por aquilo que eles de fato afirmaram. Voltemos aos ensinamentos do sábio.

Procedendo metodologicamente da maneira adequada que é sugerida (para facilitar o entendimento aos jovens incultos: abandone Marx e Hegel e volte a Kant, só para destruí-lo e refugiar-se em Nietzsche… agora é só passar para Lyotard) estaríamos aptos a abandonar certos preconceitos, como por exemplo a qualidade de “esquerda” que segundo o príncipe epilético é só uma “substância” que ninguém mais sabe o que é, servindo para enobrecer discursos. Segundo nosso profeta da amargura, devemos substituir “esquerda e direita” por “progressistas e conservadores”. Feito isso, teríamos que trocar de referencias, eis a sugestão de Míchkin:
“O pensamento da velha ‘esquerda’ tem que dar lugar a uma reflexão mais testada, mais sociológica, mais cotidiana [???]. Weber em vez de Marx, Sergio Buarque de Holanda em vez de Caio Prado, Tocqueville em vez de Gramsci.”
Lógico que por modéstia, o príncipe não seguiu suas sugestões para o campo da cultura, no qual teríamos que seguir as substituições, por exemplo, Julio Iglesias em vez de Atahualpa Yupanqui, Paulo Coelho em vez de Graciliano Ramos, ou mesmo, quem sabe, Jabor em vez de Fellini. Não, ele está preocupado com o Brasil. Para enfrentar as tarefas urgentes que evitem que caminhemos para abismo é necessário partir de cara assumindo o fracasso do socialismo real. E ele se pergunta: quem (além dele) tem peito para isso? O Socialismo é uma palavra, um dogma, que nos amarra a um fim obrigatório, esbraveja e lamenta, “como se tivéssemos que pegar um ônibus [de graça... perdão, não interrompo mais]… até o final da linha, ignorando atalhos e caminhos novos”. E conclui:
“A verdade tem que ser enfrentada: infelizmente ou não, inexiste no mundo atual uma alternativa ao capitalismo. Isso é óbvio. Digo e repito: uma ‘nova esquerda’ tem que acabar com a fé e a esperança – trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vai.”
Não é qualquer um que sugere caminhos sem saber onde vão dar, é preciso uma dose de coragem ou outra qualidade de caráter para isso. Para a marinha mercante seria uma catástrofe, mas para conduzir a humanidade, quem sabe, não é. O nosso idiota sai das gélidas paisagens da Rússia, passa pelas ensolaradas terras brasileiras ameaçadas pelo perigo vermelho e chega à Alemanha para fazer a troca. Deixa Marx e abraça ternamente a Max Weber, que lhe responde:
“Por muito diferente que fossem nossas opiniões sobre a configuração da ordem social futura, aceitamos para o momento presente, a forma capitalista. Não porque nos parece melhor diante das antigas formas, mas por considerarmos praticamente inevitável e acreditamos que as tentativas de luta radical contra ela nunca seriam um progresso, mas antes um obstáculo no acesso da classe operária à luz da cultura.”

(Max, Weber, Sobre a teoria das Ciências Sociais, Lisboa: Presença, 1979, p. 29).
Míchkin e Weber se abraçam em silêncio. Míchkin está emocionado, Weber não tem a menor ideia de quem é aquela figura. Aproveitando que estava por ali, o príncipe epilético vai até Viena tentando encontrar Freud – isso porque ele está convencido que precisamos alistar o pai da psicanálise na análise das militâncias –, mas não o encontra. Os conceitos da velha esquerda como “luta de classes”, “democracia burguesa”, “sectarismo”, “fins justificam os meios” e outros, deveriam ser substituídos por conceitos como “narcisismo”, “voluntarismo”, “onipotência”, “paranoia” e “burrice”. Vejam que o fato de que os conceitos da esquerda e da psicanálise sejam, digamos, um pouco mais sofisticados do que a síntese apresentada não incomoda nosso quixote da nova moralidade necessária.

“Somos vitimas de um desequilíbrio psíquico”, brada, quase derrubando o samovar e o bule de chá. Concordamos, parece-nos até evidente. Há estudos que tentaram diagnosticar clinicamente a epilepsia de Liev Nikoláievitch Míchkin, assim como a de seu criador (Fiódor Dostoiévski) como síndrome de personalidade interictal na epilepsia do lobo temporal – há dúvidas se no lado esquerdo ou direito (eu não tenho nenhuma: é no da direita). Algumas características de comportamento costumam ser associados à doença, tais como a hipossexualidade, a hipergrafia, o caráter antissocial, associados ou não à sintomas como paranóia, humor deprimido e hipermoralismo. Segundo um interessante artigo de Leonardo Cruz de Souza e Mirian Fabíola Studart Gurgel Mendes nos Arquivos de Neuropsquiatria, o príncipe Míchkim expressaria de forma brilhante no espectro literário os sintomas da doença de seu criador.

Freud, entretanto, tem outra opinião, para ele o trauma de odiar seu pai opressor e vê-lo sendo morto pelos camponeses desencadeou um processo psíquico de autopunição que levou à doença do escritor russo – patologia, portanto, de natureza histérica e não epilética. Mas nada disso nos interessa, porque da mesma forma que a história não nos serve como teoria (nem a economia, nem a filosofia), não será a psicanálise que terá algo a dizer. O que Freud queria mesmo dizer, mas não disse, talvez porque estava ocupado desenvolvendo a psicanálise, é que o “desequilíbrio psíquico” que aflige os nossos governantes (perigosos bolcheviques vermelhos) pode ser enquadrado nas categorias de “psicopatas e paranóicos simplórios”.

Freud, pelo que me lembro, não tratou disso, falou de enfermidades narcisísticas, as psicoses, dentre as quais a paranóia. Formas mais ou menos graves de cisão com a realidade. Mas isso não deve ser pertinente. Mais precisas são as categorias clínicas e políticas de “psicopatas e paranóicos simplórios”.

Falando em cisão com a realidade, nosso príncipe, já um tanto cansado de sua labuta para alertar as elites pensantes e velhos cultos, evoca Baudrillard que teria profetizado que “o comunismo hoje desintegrado se tornou viral”, isto é, seria capaz de contaminar o mundo, não por suas idéias e alternativas societárias (que teriam fracassado), mas “através de seu modelo de desfuncionamento e desestruturação brutal”.

Interessante ele lembrar de Baudrillard nesta sopa confusa de senso comum refinado com ácaros de cultura de bibliotecas estéreis. Não foi Baudrillard que disse “livre do real, você pode fazer algo mais real que o real: o hiper-real”? Nosso Míchkin navega nas pradarias do “hiper-real”. Agora entendi, tudo fica mais claro.

O príncipe epilético ainda tentou estabelecer uma conexão com o “eixo do mal” na America Latina, mas não desenvolveu. Estava exausto, e eu de saco cheio com tanta bobagem junta. Então, vamos aos finalmentes.

Como é possível ver, não há nada de novo nos argumentos e destemperos discursivos do autor. Entretanto, ele cumpre uma função precisa naquilo que de fato opera. Como dissemos, a ideologia opera através de mecanismos como a inversão, o ocultamento, a naturalização, a justificativa e a apresentação do particular como fosse universal. Vejamos.

Em primeiro lugar há uma clara inversão neste confuso discurso raivoso. O problema do Brasil é um governo de linha bolchevique, arraigado a dogmas do marxismo e da meta socialista que, por isso, não executa as “reformas necessárias” no Estado brasileiro (!!!).

Neste âmbito da “hiper-realidade” fica difícil seguir a análise. Os governos petistas aceitaram e assumiram a reforma do Estado nos mesmos moldes de seu antecessor e rejeitaram explicitamente qualquer nexo com a meta socialista que um dia defenderam, rendendo-se à forma capitalista como inevitável. Na inversão ideológica apresentada, o PSDB quer reformas e o PT é conservador e as impede.

O que fica oculto nesta artimanha é que, nos alerta o crítico, caso sigamos o caminho do “socialismo” iremos dar em uma “recessão barra-pesada”. Veja, tentando manter a sanidade, a crise que estamos enfrentando não resulta da opção por medidas ou formas socialistas de qualquer espécie, mas exatamente pela manutenção das formas capitalistas, do mercado e da perpetuação das relações burguesas de produção e propriedade.

A crise que estamos enfrentando não é culpa do socialismo, real ou imaginário. Se o socialismo fracassou e desapareceu como alternativa e a única alternativa possível é continuarmos no capitalismo, como professou Weber e não se cansa de repetir o Míchkin, como o socialismo pode nos levar para o buraco? Ah… é que ele, como uma ameaça viral, se impõe pelo seu “desfuncionamento” ou sua “desestruturação brutal”… Onde? Através de que políticas e ações governamentais?

Assim é fácil porque não precisamos encontrar a reposta no real – baudrillardamente, nos livramos do real. O autor é um militante imaginário, numa batalha imaginária contra um inimigo imaginário, e pior… está perdendo. Deve ser desesperador.

Toda essa engenharia imaginária acaba servindo para naturalizar uma determinada ordem, justificá-la. Filtrando toda a baboseira pretensiosa, destaco a única frase pertinente do artigo (pertinente pois expressa um juízo preciso do autor): “infelizmente ou não, inexiste no mundo atual uma alternativa ao capitalismo. Isso é óbvio”. Precisamente, nisso não há nada de óbvio. Dito de outra maneira, o argumento é o seguinte: se o capitalismo é inevitável o que atrapalha a humanidade são aqueles que ainda não perceberam isso e tentam insistir nas alternativas radicais para superá-lo. Com efeito, essa construção ideológica acaba por justificar o capitalismo e eximi-lo da catástrofe que a humanidade se meteu seguindo o caminho proposto por seus defensores. A ideologia aqui apresentada quer botar a culpa na gente!

Ao atacar o petismo como “neobolchevismo”, a critica capenga oculta as verdadeiras e necessárias alternativas, tenta desqualificá-las, antes mesmo que elas se apresentem. O PT é a expressão do pragmatismo que abandonou da meta socialista e revolucionária para construir uma estratégia de permanência no governo. Entender como bolchevismo a ocupação dos dez mil cargos de confiança por membros do PT é não entender o que é burocracia (que não foi inventada nem se restringe à experiência socialista). Já que o próprio autor propôs, eu tenho uma dica: vá ler Weber.

Por fim, não é a defesa da ordem capitalista, não é a sociedade burguesa… é a humanidade que precisa ser defendida, diz o príncipe angustiado. Não, não é. A ordem capitalista e os interesses burgueses foram devolvidos à sua particularidade, perderam a universalidade abstrata e restrita que um dia expressaram na fase revolucionária da burguesia. Capital e humanidade são hoje antagônicos, o que implica dizer que a sobrevivência de um ameaça a continuidade de outro.

Quando a solução era o capitalismo a história tinha sentido e objetividade, agora que chegamos ao capitalismo plenamente desenvolvido e o mundo, nas palavras de Adorno e Horkheimer, se assemelha a uma calamidade triunfal, devemos encarar que devemos “acabar com a fé e a esperança – trabalhar no mundo do não sentido, procurar caminhos, sem saber para onde vamos”! Bem vindo ao deserto da pós-modernidade.

Há uma alternativa para o Brasil e para o mundo e esta alternativa é anticapitalista e socialista. O que fracassou no Brasil foi o capitalismo real, aquele que estão nos impondo durante todo o século XX e início do século XXI sempre nos afirmando que agora vai. Não foi, e estamos escrevendo numa conta para o dia que este mundo vai virar. Se a ordem moribunda do mercado e do capital confunde sua existência com a da humanidade e quer arrastar-nos para a cova para a qual caminha, devemos nos desvencilhar de suas armadilhas ideológicas e recusar os conselhos dos profetas que nos empurram para o abismo para nos salvar da queda.

Não há esta passagem que vou citar no livro de Dostoiévski, mas depois que aprendi que posso me livrar do real, fiquei mais tranquilo em descrevê-la. O príncipe Liev Nikoláievitch Míchkin, em determinado momento, lamenta-se que as pessoas acham que ele é um idiota, mas não deixam de perceber sua grande inteligência. 

Neste momento, lá da realidade, sai um operário, entra na cena, atravessa a sala e colocando a mão no ombro de Míchkin, mais amistoso que violento, lhe diz com voz calma: Míchkin… você é um idiota!

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. 
Boi Tempo

Mauro Luis Iasi é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato entre outros. Confira, abaixo, o debate de lançamento do livro no Rio de Janeiro, com os autores Carlos Vainer, Mauro Iasi, Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira:

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"A Europa comete os mesmos erros que nós"

Por ocasião de uma conferência na Sorbonne em 6 de novembro de 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa interpelou os colegas europeus a respeito de sua gestão da crise da dívida. Esta seria caracterizada por uma só obsessão: garantir os interesses das finanças. 

Ele expõe a seguir uma síntese de sua reflexão:

Nós, latino-americanos, somos especialistas em crises. Não porque sejamos mais inteligentes que os outros, mas porque já passamos por todas elas. E as administramos terrivelmente mal, pois tínhamos apenas uma prioridade: defender os interesses do capital, nem que fosse para mergulhar a região em uma longa crise da dívida. Hoje, nós observamos com preocupação a Europa tomar por sua vez esse mesmo caminho.

Nos anos 1970, os países latino-americanos entraram em uma situação de endividamento exterior intensivo. A história oficial afirma que essa conjuntura foi provocada por políticas administradas por governos “irresponsáveis” e por desequilíbrios acumulados em razão de um modelo de desenvolvimento adotado pelo subcontinente no pós-guerra: a criação de uma indústria que pudesse produzir localmente os produtos importados, ou “industrialização por substituição das importações”.

Esse endividamento intensivo foi, na verdade, promovido – e até mesmo imposto – pelos órgãos financeiros internacionais. Sua lógica pregava que, graças ao financiamento de projetos de alta rentabilidade, que abundavam na época nos países do Terceiro Mundo, chegaríamos ao desenvolvimento, enquanto a renda desses investimentos permitiria o reembolso das dívidas contratadas.

Isso aconteceu até o dia 13 de agosto de 1982, quando o México se declarou incapaz de reembolsar a dívida. A partir daí, toda a América Latina sofreu a suspensão dos empréstimos internacionais e ao mesmo tempo o aumento brutal das taxas de juros de sua dívida. Empréstimos que tinham sido contratados a 4% ou 6%, mas com taxas variáveis, de repente atingiram os 20%. Mark Twain dizia: “Um banqueiro é alguém que lhe empresta um guarda-chuva quando o dia está ensolarado e o pega de volta assim que começa a chover...”.

Foi assim que a nossa “crise da dívida” começou. Durante a década de 1980, a América Latina operou para seus credores uma transferência líquida de recursos de US$ 195 bilhões (quase US$ 554 bilhões em valores atuais). Contudo, nesse período, a dívida externa da região passou de US$ 223 bilhões em 1980 para US$ 443 bilhões em 1991! Não por causa de novos créditos, mas da rolagem da dívida e do acúmulo de juros.

Assim, o subcontinente viu a década de 1980 acabar com os mesmos níveis de renda por habitante que o meio dos anos 1970. Fala-se de uma “década perdida” para o desenvolvimento. Na realidade, perdida foi toda uma geração.

Ainda que as responsabilidades tenham sido divididas, os países centrais, as burocracias internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), assim como os bancos privados internacionais, resumiram a dificuldade a um problema de superendividamento dos Estados (overborrowing). Eles nunca assumiram seu próprio papel na concessão de créditos acordados de maneira irresponsável (overlending), sua contrapartida.

As graves crises orçamentárias e de endividamento externo geradas pela transferência líquida de recursos da América Latina para seus credores levaram um grande número de países da região a redigir “cartas de intenção” ditadas pelo FMI. Esses acordos cheios de obrigações permitiam a obtenção de empréstimos junto ao órgão, assim como uma caução na renegociação das dívidas bilaterais com os países credores, reunidos no Clube de Paris.

Carência de dirigentes e de ideias
Esses programas de ajuste estrutural e de estabilização impuseram as receitas de sempre: austeridade orçamentária, aumento dos preços dos serviços públicos, privatizações etc. Tantas medidas com as quais não se procurava sair o mais rápido possível da crise nem aumentar o crescimento ou a criação de empregos, mas garantir o reembolso das dívidas para os bancos privados. No final das contas, os países em questão continuavam endividados não mais junto a esses estabelecimentos, mas perante os órgãos financeiros internacionais, que protegiam os interesses dos bancos.

No início dos anos 1980, um novo modelo de desenvolvimento começou a se impor na América Latina e no mundo: o neoliberalismo. Esse novo “consenso” sobre a estratégia de desenvolvimento foi apelidado “consenso de Washington”, já que seus principais criadores e promotores eram os órgãos financeiros multilaterais, cuja sede ficava em Washington, como o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, por exemplo. 

Segundo a lógica em voga, a crise na América Latina se devia a uma intervenção excessiva do Estado na economia, à ausência de um sistema adequado de preços livres e ao distanciamento dos mercados internacionais – ficando entendido que essas características eram decorrentes do modelo latino-americano de industrialização por substituição das importações.

Consequência de uma campanha de marketing ideológico sem precedentes maquiada de pesquisa científica, assim como de pressões diretas exercidas pelo FMI e pelo Banco Mundial, a região passou de um extremo ao outro: da desconfiança em relação ao mercado e da confiança excessiva no Estado à livre-troca, à desregulamentação e às privatizações.

A crise não foi apenas econômica; ela resultou de uma carência de dirigentes e de ideias. Tivemos medo de pensar por nós mesmos e aceitamos de maneira tão passiva quanto absurda os ditames estrangeiros.

A descrição da crise atravessou o Equador e será sem dúvida familiar a muitos europeus. A União Europeia sofre de um endividamento produzido e agravado pelo fundamentalismo neoliberal. Sempre respeitando a soberania e a independência de cada região do mundo, nos surpreendemos ao constatar que a Europa, tão esclarecida, está repetindo nos mínimos detalhes os erros cometidos ontem pela América Latina.

Os bancos europeus emprestaram à Grécia sem querer ver que o déficit orçamentário do país era quase três vezes superior ao declarado pelo Estado. Mais uma vez aparece o problema de um superendividamento sobre o qual se omite a evocação da contrapartida: o excesso de crédito. Como se o capital financeiro nunca tivesse a menor responsabilidade.

De 2010 a 2012, o desemprego atingiu níveis alarmantes na Europa. Entre 2009 e 2012, países como Portugal, Itália, Grécia, Irlanda e Espanha reduziram suas despesas orçamentárias em média em 6,4%, prejudicando gravemente os serviços de saúde e educação. Justifica-se essa política pela escassez de recursos; mas somas consideráveis foram liberadas para dar ânimo ao setor financeiro. Em Portugal, na Grécia e na Irlanda, os valores dessa “salvação bancária” ultrapassaram o total dos salários anuais.

Enquanto a crise se abate duramente sobre os povos europeus, continua-se a lhes impor as receitas que fracassaram em todo o mundo.

Tomemos o exemplo do Chipre. Como sempre, o problema começa com a desregulamentação do setor financeiro. Em 2012, sua má gestão se tornou insustentável. Os bancos cipriotas, o Banco de Chipre e o Banco Laiki em particular, tinham concedido à Grécia empréstimos privados por um valor superior ao PIB cipriota. Em abril de 2013, a Troika – FMI, Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia – propôs um “resgate” de 10 bilhões de euros. Ela condicionou este a um programa de ajuste que incluía a redução do setor público, a supressão do sistema de aposentadoria por repartição para os novos funcionários, a privatização das empresas públicas estratégicas, medidas de ajuste orçamentário até 2018, a limitação dos gastos sociais e a criação de um “fundo de resgate financeiro” cujo objetivo era apoiar os bancos e resolver seus problemas, além do congelamento dos depósitos superiores a 100 mil euros.

Ninguém duvida que reformas sejam necessárias nem que é preciso corrigir os erros graves, incluindo os originais: a União Europeia integrou países com diferenciais de produtividade muito importantes que os salários nacionais não refletiam. E finalmente, no essencial, as políticas praticadas não procuram acabar com a crise com menos custos para os cidadãos europeus, mas sim garantir o pagamento da dívida aos bancos privados.

Nós evocamos os países endividados. O que acontece com as pessoas incapazes de reembolsar suas dívidas? Tomemos o caso da Espanha. A falta de regulamentação e o acesso fácil demais ao dinheiro dos bancos espanhóis geraram uma imensa quantidade de créditos hipotecários, que galvanizaram a especulação imobiliária. Os próprios bancos procuravam os clientes, estimavam o preço de sua residência e lhes emprestavam sempre mais para a compra de um carro, móveis, eletrodomésticos etc.1

Quando a bolha imobiliária estourou, o bem-intencionado devedor não podia mais pagar seu empréstimo: não tinha mais emprego. Tomaram sua casa, mas esta valia muito menos do que quando ele a havia comprado. Sua família se encontrou na rua e endividada até o fim da vida. Em 2012, recensearam a cada dia mais de duzentas expulsões, o que explicou grande parte dos suicídios na Espanha...

Uma questão se levanta: por que não recorremos a remédios que parecem evidentes e repetimos sempre a pior história? Porque o problema não é técnico, mas político. Ele é determinado por uma relação de força. Quem dirige nossas sociedades? Os humanos ou o capital?

O maior erro que se fez à economia foi tê-la subtraído de sua natureza original de economia política. Ainda querem nos fazer crer que tudo é técnico; disfarçaram a ideologia de ciência e, ao nos encorajarem a abstrair as relações de força no seio de uma sociedade, nos colocaram todos a serviço dos poderes dominantes, daquilo que eu chamo de “império do capital”.

A estratégia do endividamento intensivo que provocou a crise da dívida latino-americana não visava ajudar nossos países a se desenvolver. Ela obedecia à urgência de aplicar o excesso de dinheiro que inundava os mercados financeiros do “Primeiro Mundo”, os petrodólares que os países árabes produtores de petróleo tinham aplicado nos bancos dos países desenvolvidos. Essas somas provinham da alta do preço do petróleo consecutiva à guerra de outubro de 1973, tendo sido esses preços mantidos a níveis elevados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Entre 1975 e 1980, os depósitos nos bancos internacionais passaram de US$ 82 bilhões para US$ 440 bilhões (US$ 1,226 trilhão atuais).

Diante da necessidade de aplicar quantias de dinheiro tão consideráveis, o “Terceiro Mundo” se tornou um merecedor de crédito. Assim, começaram a ver desfilar, a partir de 1975, banqueiros internacionais desejosos de propor qualquer tipo de crédito – inclusive para financiar despesas correntes e a aquisição de armas pelas ditaduras militares que governavam diversos Estados. Esses banqueiros zelosos, que nunca tinham vindo à região nem sequer como turistas, também trouxeram grandes malas com subornos destinados a funcionários públicos, a fim de fazê-los aceitar novos empréstimos qualquer que fosse o pretexto. Ao mesmo tempo, os órgãos financeiros internacionais e as agências de desenvolvimento continuaram a vender a ideia segundo a qual a solução era se endividar.

Ideologia disfarçada de ciência
Mesmo que a autonomia dos bancos centrais sirva para garantir a continuidade do sistema, independentemente do veredicto das urnas, ela foi imposta como uma necessidade “técnica” no início dos anos 1990, justificada por estudos ditos empíricos que demonstravam que tal dispositivo gerava melhores performances macroeconômicas. Segundo essas “pesquisas”, os bancos centrais independentes poderiam agir de forma “técnica”, distante das pressões políticas perniciosas. Com base em um argumento tão absurdo, seria preciso também tornar o ministério da Fazenda autônomo, já que a política orçamentária deveria ser puramente “técnica”. Como sugeriu Ronald Coase, ganhador do prêmio do Banco Real da Suécia em ciências econômicas em memória de Alfred Nobel, os resultados desses estudos se explicavam: os dados tinham sido torturados até dizerem o que queriam que eles dissessem.

No período que precedeu a crise, os bancos centrais autônomos se consagraram exclusivamente a manter a estabilidade monetária, quer dizer, controlar a inflação, a despeito do fato de que bancos centrais tinham tido um papel fundamental no desenvolvimento de países como o Japão e a Coreia do Sul. Até os anos 1970, o objetivo fundamental do Federal Reserve era favorecer a criação de empregos e o crescimento econômico; foi somente com as pressões inflacionárias do início dos anos 1970 que o objetivo de promover a estabilidade dos preços foi adicionado.

A prioridade dada à estabilização dos preços significou também, na prática, o abandono das políticas que visavam manter o pleno emprego dos recursos na economia. A ponto de, em vez de atenuar os episódios de recessão e desemprego, a política orçamentária, ao comprimir sem parar as despesas, veio a agravá-los.

Os bancos centrais ditos “independentes” que se preocupam unicamente com a estabilidade monetária fazem parte do problema, não da solução. Eles são um dos fatores que impedem a Europa de sair mais rapidamente da crise.

As capacidades europeias, no entanto, estão intactas. A Europa dispõe de tudo: talento humano, recursos produtivos, tecnologia. Eu acredito que é preciso tirar conclusões fortes: trata-se aqui de um problema de coordenação social. Por outro lado, as relações de poder no interior dos países europeus e no nível internacional são todas favoráveis ao capital, sobretudo financeiro, razão pela qual as políticas são aplicadas de modo contrário ao que seria socialmente desejável.

Espancados pela dita ciência econômica e pelas burocracias internacionais, muitos cidadãos estão convencidos de que não há “alternativa”. Estão enganados. 
Rafael Correa é Presidente da República do Equador, doutor em Economia e autor da obra De la République bananière à la non-Republique {Da República das Bananas à não República}
Le Monde Diplomatique

Ser Trotskista hoje

Leon Trotsky
Ser Trotskista hoje

Em geral, significa defender posições de princípio do socialismo, do marxismo. Ou seja, os trotskistas são hoje os únicos defensores, na minha opinião, das verdadeiras posições marxistas. Vamos começar por entender o que significa ser verdadeiramente marxista. Nós não podemos fazer um culto, como foi feito em Mao ou Stalin. Ser trotskista hoje não significa concordar com tudo o que ele escreveu ou o que disse Trotsky, sem conhecê-lo criticamente ou superá-lo, como Marx, Engels ou Lenin, porque o marxismo pretende ser científico e a ciência ensina que não há verdades absolutas . Essa é a primeira coisa, ser trotskista é ser crítico, até mesmo do próprio trotskismo.

No lado positivo, ser trotskista é responder a três análises e posições programáticas claras. A primeira é que, enquanto o capitalismo existir no mundo ou num país, não há solução real para absolutamente nenhum problema começando com a educação, a arte, e alcançando os problemas mais amplos da fome, a pobreza crescente, etc. Junto com isso, mas não exatamente o mesmo, o critério de que uma luta implacável contra o capitalismo para derrubá-lo é necessária a imposição de uma nova ordem econômica e social no mundo, que não pode ser outra que não o socialismo.

Segundo problema, em locais onde expropriou a burguesia (falo da União Soviética e todos os países que se dizem socialistas), não há saída se a democracia dos trabalhadores não é imposta. O grande mal, a sífilis do movimento operário mundial é a burocracia, os métodos totalitários que existem nesses países e organizações trabalhistas, sindicatos, partidos que se reivindicam da classe trabalhadora, e foram corrompidos pela burocracia. E este é um grande sucesso de Trotsky, que foi o primeiro a usar esta terminologia, que é agora universalmente aceito. Todo mundo fala sobre a burocracia, por vezes até os governantes desses estados que se dizem trabalhadores. Enquanto não existir a maior democracia não se começa a construir o socialismo. O socialismo não é apenas uma construção econômica. O único que faz esta análise é o trotskismo, e também foi o único que chegou à conclusão de que era necessário fazer uma revolução em todos esses estados e os sindicatos para garantir a democracia dos trabalhadores.

E a terceira questão, decisiva, é que ela é a única compatível com a realidade econômica e social global atual, quando um grupo de grandes empresas transnacionais dominam quase toda a economia mundial. Neste fenômeno sócio- econômico deve-se responder com uma organização e política internacional. Nesta era de movimentos nacionalistas que acreditam que tudo pode ser resolvido em casa, o trotskismo é o único que diz que há uma solução ao nível da economia mundial inaugurando a nova ordem, que é o socialismo. Para isso é preciso retomar a tradição socialista da existência de uma internacional socialista, que trata das estratégias e táticas para alcançar a derrota das grandes corporações que dominam o mundo, para inaugurar o socialismo mundial, que será mundial ou não será. Se a economia é mundial tem de haver uma política global e organização global de trabalhadores para a revolução, cada país que faz a sua revolução, a espalha globalmente, por um lado; e por outro lado, sempre que você dá mais direitos democráticos da classe trabalhadora, para que seja ela quem toma seu destino em suas mãos por meio da democracia. O socialismo não pode ser qualquer coisa além de global. Todas as tentativas de fazer o nacional-socialismo falharam, porque a economia é global e não se pode resolver os problemas econômico e social dentro das fronteiras estreitas de um país. Quem devemos derrotar são as transnacionais no mundo inteiro para entrar na organização socialista mundial.

Portanto, a síntese do trotskismo hoje é que os trotskistas são os únicos no mundo que têm uma organização mundial (pequeno, fraco, tudo que eu quero) mas a única internacional existente, a Quarta Internacional, que incorpora toda tradição das anteriores e atualiza diante de novos fenômenos, mas com a visão marxista: que é a necessidade de uma ação internacional.
Nahuel Moreno (1924 - 1987)
Relatório realizado em agosto de 1985 e publicado pela primeira vez em 1988 (esboço biográfico, Cadernos Correio Internacional ) .

Trensalão é tratado como se fosse apenas Ferrorama pelo PIG

Detesto ferrorama! Principalmente se for da supervia!!!
Propinoduto Tucano é DEZ vezes maior que mensalão do PT

O Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou ontem que há “fortes indícios de existência do esquema de pagamento de propina pela Siemens a agentes públicos vinculados ao Metrô de São Paulo”.

Um pouco antes disso, no dia 20 de dezembro, o governador Geraldo Alckmin demitiu Benedito Dantas Chiaradia do alto escalão do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do Estado de São Paulo. Chiaradia, em depoimento à Polícia Federal, em novembro, havia confirmado que havia um cartel para pagamento de propinas na CPTM.

Ao mesmo tempo, os secretários citados como participes do esquema Edson Aparecido, José Anibal, Rodrigo Garcia e Arnaldo Jardim continuam todos no governo.
O jornalismo que espreme petistas perguntou ao governador Alckmin se a demissão de Chiaradia tinha relação com o fato de ele ter denunciado o esquema. E Alckmin foi “firme”: “não tem nenhuma relação. Era um cargo de confiança do próprio DAEE e ele saiu. Nenhuma relação”.

E em nota oficial depois da afirmação de Janot de ontem, o governo do estado emitiu uma nota oficial dizendo que “a Corregedoria-Geral da Administração apura com rigor os fatos citados pela Siemens no acordo de leniência com o Cade”. E ponto final.

Dito isso, tudo resolvido.
Os jornalões se contentam com a explicação de um esquema que pode ter sangrado em mais de 1 bilhão os cofres públicos. E partem para a investigação do aluguel da casa de Genoino, de 4 mil reais. Ou pior, vão investigar se José Dirceu usou o celular na Papuda.

A criminalização da política é algo extremamente perigoso para a democracia. E neste sentido o PT errou demais quando colocava a denúncia como seu principal instrumento de fazer política. Mas ao mesmo tempo a forma leniente como a mídia trata os esquemas corruptos do PSDB chega a dar engulhos.

O PSDB está no governo de São Paulo desde 1994. O mesmo grupo já havia participado do governo Montoro e ficou um tempo com Quércia no poder. Só rompeu em 1989, quando formaram um partido de quadros para disputar a eleição presidencial. Mas é bom lembrar que FHC e Covas se elegeram na chapa do falecido ex-governador. E neste período, São Paulo já viveu escândalos em quase todas as áreas. Desde a revitalização do Rio Tiete, passando pelo Metrô, Sabesp, CDHU etc. E basta uma resposta do tipo “nenhuma relação” e “estamos investigando com rigor” para que tudo fique por isso mesmo.

O trensalão virou um Ferrorama na versão midiática. E o esquema de propinas um Banco Imobiliário. A narrativa é tão infantil e de faz de conta que não se pode imaginar que jornalistas sérios não fiquem com vergonha de assinar certas matérias.

Blog do Rovai

Uma nova Era do Gelo!

A atividade do Sol está em sua fase mais baixa dos últimos 100 anos, afirmam pesquisadores.
Cientistas alertam que o Sol está diminuindo sua atividade, podendo nos conduzir a uma pequena “Era do Gelo”

Eles dizem que as condições são assustadoramente semelhantes àquelas encontradas antes do Mínimo de Maunder, um tempo em 1645, quando uma mini Idade do Gelo congelou o rio Tâmisa, em Londres.

As novas observações indicam que a calmaria do Sol pode causar grandes mudanças, existindo chances de 20% em interferências nas temperaturas globais.

"Seja qual for a medida que usamos, os picos solares estão caindo”, comentou Richard Harrison do Laboratório Rutherford Appleton, do Reino Unido, em entrevista à BBC. "Eu sou físico solar há 30 anos, e eu nunca vi nada igual".

Ele diz que o fenômeno pode levar a invernos mais frios do mesmo modo que ocorreu no Mínimo de Maunder: "Havia invernos frios, quase uma mini Era do Gelo, tão forte que congelou o rio Tâmisa”, disse.

Lucie Green da UCL, rebate a teoria de Harrison. Ela acredita que as coisas poderiam ser diferentes desta vez devido à atividade humana: "Temos 400 anos de observações de uma forma muito semelhante à fase de quando tivemos o Mínimo de Maunder. O mundo em que vivemos hoje é muito diferente, a atividade humana pode neutralizar isso - é difícil dizer quais são as consequências".

Mike Lockwood da Universidade de Reading, diz que as temperaturas mais baixas poderiam afetar o sistema global, fazendo com que os mecanismos meteorológicos entrem em colapso: "Nós estimamos que em 40 anos, teremos uma probabilidade de 10 a 20% de entrarmos novamente no Mínimo de Maunder”.

No ano passado, a Nasa advertiu que ‘algo inesperado’ pode estar ocorrendo com o Sol. A agência afirmou que 2014 deveria ser o ano do “máximo solar”, o auge do ciclo das manchas que ocorre a cada 11 anos, mas as novas imagens revelam uma atividade relativamente baixa e isso não era esperado pelos astrônomos.
Físicos da Nasa ficaram perplexos com a aparente ‘falta de atividade’ – alguns cientistas se perguntam se a agência espacial não teria interpretado de forma errada as imagens obtidas.

No entanto, o físico solar Dean Pesnell do Goddard Space Flight Center acredita ter uma explicação diferente: “Este já é o máximo solar, mas parece diferente do que esperávamos. Os dois últimos máximos solares ocorreram por volta de 1989 e 2001. Tiveram não um, mas dois picos. A atividade solar subiu, caiu, e em seguida, levantou-se novamente, realizando um mini-ciclo que durou cerca de dois anos”, disse ele.

Ele acredita que a mesma coisa está ocorrendo agora. Segundo sua análise, as manchas solares subiram em 2011 e caíram em 2012: “Eu me sinto confortável em dizer que um pico ocorreu em 2013 e, possivelmente irá durar até 2014”.

Apesar da aparente confusão, os pesquisadores não entraram em um acordo comum sobre a “calmaria” do Sol e não sabemos se isso, de fato, pode afetar o clima na Terra de alguma maneira.

Infelizmente, conexões diretas entre a atividade solar e o clima terrestre é um campo de pesquisa que ainda está em desenvolvimento.

O que é o Mínimo de Maunder?
O Mínimo de Maunder, também chamado de Mínimo de Manchas Solares Prolongado, é um período que teve início no ano de 1645 e durou até 1715. Nesta época, manchas solares tornaram-se extremamente raras e quase não eram observadas na época.

O fato provocou uma onda de frio que congelou rios famosos, como Tâmisa em Londres. Este período de aparente “inatividade solar” ocasionou o surgimento climático de uma “Pequena Era do Gelo”, tornado comum neve em locais de baixa altitude onde isso não ocorria anteriormente.

Jornal Ciência

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O IMPÉRIO DOS VIDEOGAMES

O videogame extrapola o universo doméstico, tornando-se instrumento de políticas públicas e ferramenta de gerenciamento

Todo dia 30 de abril, Amsterdã organiza a Festa da Rainha, uma imensa feira de antiguidades ao longo da qual os homens criaram o desagradável hábito de urinar na rua. A polícia bem que tentou, multiplicando as multas, mas nada parecia pôr fim a essa tradição. Até que a companhia de águas Waternet recorreu a uma medida inédita: a instalação em via pública de mictórios eletrônicos ligados a telas. Ao mesmo tempo que se aliviam, os caçadores de pechinchas de Amsterdã veem a imagem de seu avatar associada a uma pontuação. No fim do dia, o vencedor do concurso “Big pipi” ganha o reembolso de sua última conta de água. Uma tela, pontos, uma classificação, uma recompensa: esses elementos tomados emprestados do universo lúdico teriam provocado uma redução considerável das perturbações olfativas.

“Os jogos não são apenas um lazer. [...] Eles são uma verdadeira solução para os problemas e uma fonte de alegria”, argumenta a socióloga Jane McGonigal, grande pregadora da ludificação (gamification). Ao sugerir aos indivíduos adotar o bom comportamento em troca de uma gratificação simbólica ou material num ambiente lúdico, os jogos poderiam, segundo ela, “reinventar tudo, desde o Estado, a saúde e a educação até as mídias, o marketing e o empresariado”. Eles teriam até mesmo a capacidade de “instaurar a paz mundial”.

Essas proclamações aparentemente excêntricas são levadas a sério por um número cada vez maior de empresas, administrações e coletividades locais preocupadas em manter seus clientes ou usuários dentro das normas de boa conduta de uma maneira ao mesmo tempo divertida e eficaz. A ludificação se inspira na teoria – bastante controversa – do “condicionamento operante” formalizada pelo psicólogo Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), que a experimentou inicialmente em roedores: as ações dos sujeitos podem ser influenciadas por “motivações extrínsecas” negativas (a repressão, o medo da punição) ou positivas (a busca do prazer, o atrativo da recompensa). Os mictórios eletrônicos de Amsterdã pertencem à segunda categoria.

Se os sorteios organizados em benefício de obras sociais animam salões de festas há séculos, o movimento atual de ludificação se apoia na conjunção de três elementos: a multiplicação das telas individuais, a explosão das capacidades de estoque e tratamento dos dados pessoais e a aceitação de uma ideologia que assemelha o humano a uma máquina de calcular seus interesses – e, a partir daí, disposto a só prestar atenção ao que lhe parece divertido ou lucrativo. “Poucos entusiastas da ludificação ressaltam esse paralelo, mas a maneira como a mecânica lúdica colonizou nossa vida reflete estreitamente a expansão da lógica do mercado no cerne de nossas instituições sociais, culturais e políticas”, nota o analista das novas tecnologias Evgeny Morozov. “Utilizar jogos para que as pessoas tomem seus remédios, parem de fumar ou frequentem a escola não é muito diferente de pagá-las para agirem assim.” (Evgeny Morozov, To save everything, click here. Technology, solutionism and the urge to fix problems that don’t exist [Para salvar tudo, clique aqui. Tecnologia, solucionismo e a ânsia de resolver problemas que não existem], Penguin Books, Londres, 2013.)

A ideia de mudar o mundo usando videogames foi, no entanto, levantada por desenvolvedores independentes que queriam utilizar a informática para colocar em evidência os mecanismos sociais e favorecer uma tomada de consciência política. Assim, o McDonald’s Videogame coloca o jogador na pele de um administrador da transnacional a fim de fazê-lo compreender as engrenagens da indústria do fast-food, do lobby no Congresso norte-americano à corrupção nos países do Sul. Criado pelo artista Josh On, o Antiwargame permite por sua vez encarnar o presidente dos Estados Unidos em guerra contra o terrorismo e revela a coalizão entre os interesses econômicos, militares e midiáticos.

Esses “jogos persuasivos”, segundo a expressão do sociólogo Ian Bogost, não têm muito a ver com as incitações lúdicas praticadas hoje em dia. Pois, ao recompensar os bons atos (estacionar no lugar certo, ter uma alimentação balanceada...), a ludificação age sobre os efeitos, não sobre as causas. Quando a Nissan propõe ao motorista de seu mais recente modelo de carro elétrico ganhar pontos ao evitar pisar inutilmente no acelerador – sua pontuação aparece no painel ao lado das dos outros condutores da região –, o construtor japonês encoraja a aquisição de um reflexo, e não a compreensão das razões pelas quais é importante economizar energia. A medalha virtual atribuída ao piloto mais econômico poderia da mesma forma caber a um babuíno corretamente treinado.

Com atualização instantânea no smartphone, a gratificação por um sistema de pontos facilita a comparação e, portanto, a competição lúdica com outros “jogadores”. Ela oferece ainda por cima infinitas declinações. Para aliviar os estabelecimentos penitenciários, a consultoria Deloitte sugere, em um relatório publicado em março de 2013, encorajar os detentos em liberdade condicional a respeitar suas obrigações graças a um aplicativo para smartphone que atribuiria pontos a eles (convertíveis em redução de pena) a cada vez que fossem pontuais em um encontro de avaliação ou que retiraria pontos se eles se afastassem de sua zona de restrição.

Uma corrida aos armamentos do prazer
Um método capaz de influenciar o comportamento dos indivíduos sem que eles se dessem conta não poderia escapar por muito tempo do universo do mercado. As empresas entenderam depressa o benefício que poderiam tirar do universo dos jogos para recrutar e formar seus funcionários, aumentar a produtividade, fidelizar seus clientes ou tornar seus produtos conhecidos. O escritório Gartner prevê dessa forma que em 2015 70% das 2 mil maiores empresas mundiais utilizarão tecnologias lúdicas. Nos Estados Unidos, o mercado da ludificação digital, que representava US$ 100 milhões em 2010, deverá atingir US$ 1,6 bilhão em 2015.

Especializada na concepção de sistemas de recompensa lúdica sob a forma de videogames, a nova-iorquina Next Jump tem entre seus clientes o Bank of America, o Morgan Chase e a AT&T. “Estamos no meio da corrida aos armamentos do prazer”, jubila-se Gabe Zichermann, organizador do primeiro “Encontro da gamification”, em janeiro de 2011. Em Hong Kong, a Coca-Cola já não se contenta mais com as publicidades que o telespectador absorve passivamente. O aplicativo Chok! Chok! Chok! convida seus alegres utilizadores a chacoalhar seu smartphone quando um comercial da bebida gaseificada passa na televisão; os mais frenéticos obtêm cupons de desconto. No dia de seu lançamento, o aplicativo ficou em primeiro lugar na lista da Apple Store Hong Kong.

Além de permitir aumentar as vendas, o jogo se revela uma poderosa ferramenta de gestão de recursos humanos, pois recobre com um verniz lúdico a tradicional estratégia de estabelecer a concorrência entre os trabalhadores. O Language Quality Game da Microsoft classifica e recompensa os funcionários que percebem disfunções no sistema operacional Windows. Inspirando-se em práticas experimentadas nas centrais de telemarketing, os restaurantes norte-americanos utilizam um aplicativo desenvolvido pela Boston Objective Logistics para dar notas a seus garçons. Os melhores – em termos de número de mesas servidas, gorjetas recebidas etc. – ganham “pontos karma”, cuja acumulação dá direito a servir as mesas mais lucrativas.
Caixas da loja Target precisam ganhar o "jogo" ou perder o emprego!
Mas o que existe de divertido, no fundo, em bater recordes de chamadas telefônicas feitas ou de mesas postas? Esse método envernizado com as cores ácidas do Vale do Silício remete irresistivelmente aos concursos de trabalhadores organizados na União Soviética. Ela mobiliza componentes secundários do jogo (os pontos, os níveis, as classificações, as medalhas) e os erige como elemento principal, como finalidade: o jogo em si não tem nenhum interesse. Em vez de tornar o trabalho intrinsecamente desejável (ao permitir produzir bens e serviços úteis, em boas condições e por um bom salário), as empresas inventam estímulos extrínsecos que favorecem o investimento em um trabalho alienante, estressante e frequentemente mal pago: o atrativo da recompensa é o que motiva, não o prazer do jogo.

O Target Checkout Game, infligido aos caixas das lojas Target, elevou a mistificação lúdica ao seu ponto máximo. Quando os funcionários passam no leitor o código de barras de um produto, um sinal aparece na tela: verde quando respeitam a cadência, vermelho quando são muito lentos. Quem ultrapassa a barra dos 82% de sucessos ganha... os cumprimentos do chefe; quem não atinge a marca corre o risco de ser reenviado para um cargo subalterno ou até ser demitido. Um jogo no qual se pode perder tudo, nunca ganhar.

Um lazer viciante?
Os jogadores on-line consagram uma média de treze horas por semana aos videogames, ou seja, o equivalente do tempo passado diante da televisão, mas mais do que o devotado à leitura de jornais e revistas. (Ian Bogost, Persuasive games. The expressive power of videogames, MIT Press, Cambridge, 2010)

Tempo acumulado consagrado pelo conjunto dos jogadores de World of Warcraft (11,5 milhões de pessoas em 2010) desde sua criação em 2004: 5,93 milhões de anos.

Na Alemanha, na França e no Reino Unido, um grupo fixo de 10 milhões de jovens passam ao menos vinte horas por semana diante de videogames. Nos Estados Unidos, 5 milhões de jogadores “extremos” consagram semanalmente 45 horas a isso.

Le Monde Diplomatique

Quantos sábados o Iguatemi aguentaria fechado?

Rosa Parks dando um "rolezinho" no setor só de brancos do ônibus!
Há 57 anos uma negra chamada Rosa Parks deu um rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos no transporte coletivo de Montgomey, nos EUA.

O Museu Henry Ford, em Detroit, nos EUA, guarda inúmeras relíquias  da história norte-americana sobre rodas.

O veículo no qual  Kennedy foi baleado  está lá. Gigantescas locomotivas  que desbravaram a expansão ferroviária do país no século XIX ilustram em toneladas de ferro e aço  o sentido da expressão revolução metal-mecânica. Perto delas os esqueléticos Fords-bigode que deram origem à indústria automobilística, de que Detroit foi a capital um dia, parecem moscas.

O museu abriga  também um centenário ônibus da ‎ National City Lines, de número 2857, um GM com o número  1132, que fazia a linha da Cleveland Avenue na cidade de Montgomery, no Alabama,  em  1 de dezembro de 1955.

A ocupação de um assento  naquele ônibus  mudaria  a história dos direitos civis nos EUA promovendo um salto na luta pela igualdade entre negros e brancos no país.

O verdadeiro símbolo do episódio não é o velho GM, mas a costureira e ativista dos direitos dos negros, Rosa Parks (1923-2005) que  naquela noite se recusou   a ceder o lugar a um branco.

Rosa tinha 40 quando desafiou a física do preconceito no Alabama dos anos 50, segundo a qual  brancos e negros não poderiam usufruir coletivamente do mesmo espaço, ao mesmo tempo.

Rosa Parks viveria mais 50 anos para contar e recontar esse rolezinho sobre as prerrogativas dos brancos , que transformaria  o velho GM em um centro de peregrinação política. O último presidente a sentar-se no mesmo banco do qual ela só saiu presa  foi Barak Obama.

Em 2012 depois de alguns segundos em silêncio no mesmo lugar, ele disse: ‘É preciso um gesto de coragem das pessoas comuns para mudar a história’.

Rosa Parks era uma pessoa comum até dizer basta a uma regra sagrada  da supremacia branca nos EUA. Em pleno boom de crescimento do pós-guerra, quando  negros se integravam ao mercado de trabalho e de consumo norte-americano, eles não dispunham de espaço equivalente nem no plano político, nem nos espaços públicos, como o interior de um veículo de passageiros.

No Alabama os bancos da frente dos ônibus eram exclusivos dos brancos;  os do fundo destinavam-se  aos negros. Detalhes evitavam o contato entre as peles de cores distintas: os negros compravam seu bilhete ingressando pela porta da frente, mas deveriam descer e embarcar pela do fundo.

À medida  em que os assentos da frente se esgotavam  os negros deveriam  ceder seu lugar a um novo passageiro branco que embarcasse no trajeto.

Rosa Parks estava fisicamente exausta  aquela noite  e há muitos anos cansada  da desigualdade que  humilhava sua gente. Ela recusou a ordem do motorista e  não cedeu o lugar mesmo ameaçada. Sua prisão  gerou um boicote maciço dos negros de Montgomery.

Durante longos meses eles  que se recusaram a utilizar o transporte coletivo da cidade provocando atrasos nos locais de trabalho e prejuízos às empresas de transporte.

Milhões de panfletos explicativos  seriam distribuídos diariamente; de forma pacífica,  grupos de ativistas vasculhavam os pontos de ônibus da cidade para convencer  negros a aderi ao boicote. Quase um ano depois  a lei da segregação dentro dos  ônibus foi extinta.

Neste sábado, um dos shoppings mais luxuosos de SP , o Iguatemi JK, cerrou as portas para impedir  que movimentos sociais fizessem ali um protesto contra a discriminação em relação aos pobres. O Iguatemi foi um dos pioneiros a obter liminar na Justiça de SP autorizando  seguranças a selecionar o ingresso de clientes  para barrar a juventude dos rolezinhos - marcadamente composta de  jovens da periferia,  pretos, mestiços e pobres.

A memória dos acontecimentos de 57 anos atrás em Montgomery convida a perguntar :
 - A exemplo das transportadoras racistas do Alabama, quantos sábados o Iguatemi aguentaria de portas cerradas, cercado por manifestações pacíficas  e desidratado pela fuga de seus clientes tradicionais?

Carta Maior

Campanha publicitária fantástica contra o preconceito


Criada em Portugal, esta fantástica campanha publicitária passa a mensagem que a falta de esclarecimento e a intolerância são os principais ingredientes de atitudes retrógradas e hostis das pessoas. Um vídeo para refletir. 

Diga NÃO ao preconceito!!!
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FHC desenterra dogmas neoliberais

Em sua coluna no jornal Estadão no domingo (5), o ex-presidente FHC abriu o jogo. Ele propôs, sem meias palavras, o retorno ao receituário neoliberal – o mesmo que quase quebrou o Brasil em seu triste reinado e levou a uma das mais graves crises do sistema capitalista mundial – e ainda do complexo de vira-latas diante dos EUA. 

Especula-se que o grão-tucano foi sondado para ser vice de Aécio Neves, o cambaleante presidenciável do PSDB, numa chapa puro sangue que repetiria a dobradinha café-com-leite – São Paulo e Minas Gerais. Seria ótimo para explicitar os projetos em disputa no Brasil. É bom guardar o texto de FHC, antes que ele peça para esquecer o que escreveu, como importante peça da campanha de 2014.

Entre outras medidas "urgentes", o ex-presidente prega que “é óbvio que a política externa brasileira precisará mudar de foco, abrir-se ao Pacífico, estreitar relações com os EUA e a Europa, fazer múltiplos acordos comerciais, não temer a concorrência e ajudar o País a se preparar para ela... Não devemos ficar isolados em nossa região, hesitantes quanto ao bolivarianismo, abraçados às irracionalidades da política argentina”. O texto parece ter sido escrito por algum assessor de Barack Obama, talvez com o objetivo de conseguir apoio financeiro das multinacionais estadunidenses!

Ou seja, FHC defende abertamente o retorno à política de “alinhamento automático” com os EUA e o distanciamento dos países dos BRICS e do processo de integração soberana da América Latina. 

No seu governo, esta orientação colonizada travou o desenvolvimento do país e reduziu a diversidade dos parceiros comerciais. Caso estivesse em vigor em 2008, quando os EUA afundaram na recessão, o Brasil ficaria pendurado na brocha. A política externa soberana do ex-presidente Lula, mantida na essência por Dilma Rousseff, foi um dos fatores fundamentais para evitar que a crise mundial tivesse o impacto de um tsunami no Brasil. Mesmo assim, FHC finge-se de morto e prega o retorno ao passado.

Já no que se refere à política interna, o grão-tucano repete os velhos dogmas neoliberais. Defende que “já é hora de baixar os impostos” – dos capitalistas e não os descontados na folha de pagamento dos assalariados – “e de abrir mais a economia”. É a velha tese do Estado mínimo – mínimo para os trabalhadores e máximo para o grande capital. Em seu triste reinado, a tal abertura da economia quase quebrou a indústria e outros setores produtivos, reduzindo o mercado interno de consumo e resultando em recordes de desemprego. Já a carga tributária foi elevada para os assalariados e os banqueiros e grandes corporações empresariais receberam inúmeros socorros, como o famoso Proer.

FHC ainda insiste que é preciso acelerar o processo de privatização. “Noutros termos, fazer com competência o que o governo petista paralisou nos últimos dez anos e o atual, de Dilma Rousseff, se vê obrigado a fazer, mas o faz atabalhoadamente, abusando do direito de aprender por ensaios e erros, deixando no ar a impressão de amadorismo e dúvida sobre a estabilidade das regras do jogo. Com isso não se mobilizam no setor privado os investimentos na escala e na velocidade necessárias para o país dar um salto em matéria de infraestrutura e produtividade. Mordido pelo DNA antiprivatista e estatizante, persiste o governo atual nos erros cometidos na definição do modelo de exploração do pré-sal”.

Com o artigo intitulado “Mudar o rumo”, o grão tucano tenta desenterrar velhos dogmas neoliberais. Estas ideias destrutivas e regressivas já causaram três derrotas seguidas do PSDB nas eleições presidenciais e transformaram FHC num dos políticos mais rejeitados da história do Brasil. Ao final do texto, o ex-presidente afirma: "É preciso redesenhar a rota do país. Dois terços dos entrevistados em recentes pesquisas dizem desejar mudanças no governo. Há um grito parado no ar, um sentimento difuso, mas que está presente. Cabe às oposições expressá-lo e dar-lhe consequências políticas”. Concordo plenamente! A oposição demotucana e os novos oposicionistas devem, de fato, levar estas propostas para a TV.

Blog do Miro