A relação entre Policarpo e Cachoeira durou pelo menos uma década. Em todo esse tempo, nem o jornalista nem a Veja jamais desconfiaram de nada? |
Chega a ser espantoso alguém ter que dizer isto. Escrever o que vai
adiante equivale a dizer que o Sol é amarelo: é imperioso que a CPMI do
Cachoeira convoque o diretor da revista Veja Policarpo Júnior porque é
imensa a suspeita de que ele tinha conhecimento de que o bicheiro
dirigia um esquema criminoso envolvendo políticos, empresários e
autoridades.
É óbvio ou não? Policarpo, Veja e seus protetores negam que o
jornalista tivesse conhecimento de que sua fonte estava cometendo crimes
do porte dos que vão se tornando de conhecimento público? Se for assim,
nunca disseram.
Veja, seus blogueiros, sua direção e os meios de comunicação que os
defendem afirmam que a relação entre Cachoeira e sua quadrilha com
Policarpo nada mais era do que relação entre jornalista e sua fonte. Ok,
mas alguém leu ou escutou afirmação de que esse jornalista não sabia
dos crimes que suas fontes estavam cometendo?
A grande questão que se coloca, portanto, é a seguinte: um jornalista
pode manter relações com criminosos, sabendo que são criminosos, a fim
de obter informações sobre outros supostos criminosos? Pode esconder os
crimes de uns para obter informações contra outros?
Veja deveria ter denunciado o esquema de Cachoeira. A única forma de a
publicação se safar da acusação de cumplicidade será negando que sabia
dos crimes. Até hoje, isso não ocorreu. Essa explicação tem que ser
dada. É absurdo que queiram poupar Veja e o próprio Policarpo de darem
essa resposta à sociedade.
A questão que se coloca, repito, é a seguinte: a relação entre
Policarpo e Cachoeira durou pelo menos uma década. Em todo esse tempo,
nem o jornalista nem a Veja jamais desconfiaram de nada? É isso? Um
esquema desse tamanho, com tal ramificação, com envolvimento de uma
grande empreiteira, com nomeações mil para o governo de Goiás e a
revista e seu diretor "não sabiam"? E o que é pior: a despeito de
Policarpo ser um jornalista investigativo?
Gravações mostram que Policarpo sabia da relação entre um senador da
República e o bicheiro. O delegado da Polícia Federal Matheus Mela
Rodrigues, responsável pela Operação Monte Carlo, disse à CPMI do
Cachoeira, quinta-feira retrasada (10), que o jornalista sabia que
Demóstenes Torres e o bicheiro tinham profunda relação.
Gravações publicadas pelo site Carta Maior mostram Cachoeira
conversando com o ex-diretor da Delta no Centro-Oeste, Cláudio Abreu, e
deixam claro que Policarpo sabia da ligação do contraventor com a
empreiteira. Mas, segundo Cachoeira, Policarpo não iria divulgar nada.
Está gravado.
Em um dos trechos, Cachoeira diz que Policarpo não "colocaria em
roubada" os criminosos apesar de que ele "sabia de tudo", ou seja, da
relação de Cláudio Abreu, da Delta, com o bicheiro. Leia, abaixo, a
transcrição do grampo da Polícia Federal.
— O Policarpo é o seguinte: ele não alivia nada, mas também não te
põe em roubada, entendeu? Eu falei, eu sei, ó: "Inclusive vou te
apresentar depois, Policarpo, o Cláudio, eu sou amigo", eu falei que era
amigo do cê de infância. E ele: "Então, ele trabalha na sua empresa",
falou assim, "vai me contar que você tem ligação com ele". Ele
[Policarpo] sabia de tudo. "Eu não vou esconder nada de você não,
Policarpo, o Cláudio é meu irmão, rapaz".
Policarpo "Sabia de tudo", diz Cachoeira. Tudo o quê? Quem disse
"tudo" foi o bandido. "Tudo" inclui atividades criminosas? Essa
explicação não tem que ser dada? Como alguém pode exigir que não se
peçam explicações sobre Policarpo e Veja saberem ou não de um esquema do
tamanho que todos estão vendo?
É muito simples: se Policarpo sabia que seus informantes estavam
corrompendo, roubando e fraudando desbragadamente, há que perguntar se
Veja também sabia e por que não denunciou. Foi só para obter denúncias
contra o PT? Ora, se assim for, Veja cometeu um crime associando-se ao
bandido. Contribuiu para que continuasse delinqüindo.
Acobertar um esquema criminoso desse porte não se justifica pelo
sigilo da fonte. Esse sigilo até pode ser usado quando o jornalista
divulga informação que recebeu de um bandido, mas isso não o exime de
denunciá-lo. O jornalista não tem que contar quem lhe deu aquela
informação sobre outro esquema criminoso, mas isso não o impede de
denunciar crimes de seu informante que nada têm que ver com a informação
que ele lhe deu.
Se ficar provado que Policarpo sabia que sua "fonte" estava cometendo
tantos crimes e nada disse a fim de manter a fonte informando-o, não
resta dúvida alguma de que cometeu um crime, de que foi cúmplice do
criminoso. E se Veja também sabia, idem. Não existe nenhum advogado,
nenhum juiz, nenhum especialista em código penal que negará isso.
É uma enormidade o que a grande imprensa, em um surto de
corporativismo, está propondo. A proposta é a de que jornalistas possam
acobertar esquemas criminosos do porte do de Carlinhos Cachoeira a fim
de obterem informações sobre outros supostos esquemas criminosos. E de
que essa proteção possa se estender por anos.
Assim sendo, esquemas criminosos se perpetuarão e apenas alguns
outros esquemas criminosos serão desbaratados. Ou seja: querem dar à
imprensa uma licença para ela dar outra licença a bandidos para
cometerem seus crimes. Estes bandidos-informantes seguiriam cometendo
crimes gravíssimos sem ser incomodados.
A única saída para Policarpo e para seus empregadores é negarem
conhecimento de que Cachoeira fosse um criminoso. Para isso, terão que
depor e explicarem essa questão. Todavia, se fizerem isso e aparecerem
gravações ou alguma outra prova do contrário, estarão perdidos. Por isso
a mídia não quer que Policarpo se explique na CPMI.
Eduardo Guimarães tem 52 anos, é paulistano, comerciante, blogueiro e presidente da ONG Movimento dos Sem Mídia
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